De tempos em tempos, aparece na mídia ocidental e suas vertentes (boa parte da mídia brasileira entra nisso) críticas a China em relação à “censura” na internet. Reclamam que não se pode falar de certos assuntos, como o Massacre na Praça da Paz Celestial ou tecer críticas ao partido comunista. Pois bem, neste post não quero falar especificamente sobre a “censura chinesa”, mas sobre como a mídia ocidental trata com dois pesos e duas medidas a censura que ocorre no ocidente, principalmente nas redes sociais americanas.
Recentemente, estava usando o Instagram, rede social da Meta, e vi uma notícia do Metrópoles que alterava a forma de escrita de algumas palavras. A manchete era a seguinte:
Monitora de creche no DF é indiciada após agr3dir 18 crianças
Bem, por que a palavra “agredir” tem sua grafia modificada? Porque o algoritmo do Instagram diminui o engajamento de posts que possuam algumas palavras que são consideradas inadequadas, então perfis na rede adaptam seu discurso como uma forma de conseguir manter seu engajamento alto. Essa tendência começou com influenciadores digitais mas agora se expandiu até para perfis de notícia, como podemos ver. Em alguns vídeos curtos em inglês, cheguei a ver americanos trocando palavras como “Rape” por “Grape” e “Porn” por “Corn” para driblar o baixo engajamento que essas palavras trariam.
Por si só, vemos um claro exemplo de censura. Como essas grandes redes sociais monopolizam o espaço e o discurso, ter o seu alcance diminuído é equivalente a ser silenciado para o resto da sociedade. Ao contrário de um órgão estatal responsável por escolher o que é ou não é visto, como ocorria na ditadura militar brasileira, a censura ocorre por meio de uma empresa privada que possui o monopólio dos meios de comunicação e que terceiriza a culpa de censura para um algoritmo: ou seja, sequer seria capaz de responsabilizar uma pessoa por um conteúdo invisibilizado, quem faz isso é uma máquina que não pode ser responsabilizada por suas ações.
Muitas pessoas poderiam argumentar que essa censura é “justa”, já que as palavras citadas são de cunho violento/sexual. Seria possível argumentar isso, se essa censura não causasse mal a conteúdos educativos e informativos, além de que violência é presente na nossa sociedade e silenciá-la é alienar os cidadãos que lhe pertencem. Mas, a censura nas redes vai para muito além disso.
A Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL) é uma organização que representa a diáspora palestina no Brasil, realizando trabalhos de base e informando pessoas sobre injustiças com o povo palestino. A conta da FEPAL no Instagram, assim como outras contas que tratam do genocídio palestino são constantemente invisibilizadas e tem seu engajamento cortado, sendo mais uma forma de como essa censura tem um claro viés político. Essa denúncia não vem só da própria FEPAL, mas como também da Human Rights Watch que em um relatório de 2023 mostrou como a Meta realiza censura sistêmica em contas que falam sobre o genocídio palestino, através de remoção de posts e stories, restrição de engajamento (shadowban), restrição da monetização.
Um dos episódios que mais escracham a censura contra contas de esquerda nas redes sociais foi quando a Meta retirou das buscas diversas contas de esquerda, como a conta do presidente Lula, da deputada Erika Hilton e do influenciador Jones Manoel, sem nenhuma explicação prévia. As redes sociais se tornaram grandes meios de comunicação e é inadmissível que elas utilizem seu poder de monopólio para censura já que, invisibilizar um discurso nessas redes, é moldar a forma que uma camada considerável da sociedade enxergará e construirá opiniões sobre um evento.
Daí que volto à minha reflexão inicial do início do post: se os grandes veículos da mídia tecem grandes críticas às “censuras” de países “autoritários”, por que elas não tecem as mesmas críticas às censuras impostas pelas redes? Por que qualquer forma de regulação estatal é chamada de “censura”, enquanto que a censura que ocorre nas redes são vistas como exemplo de “liberdade”?
Ora, influenciadores tem que moldar seu conteúdo, evitando certos assuntos considerados “polêmicos”, para não serem invisibilizados nas plataformas. Eles tem que esquivar de palavras e moldar seu discurso para se adequarem. Contas de esquerda são retiradas do ar sem nenhuma explicação. Falar sobre o genocídio palestino é um grande não nas redes. O que falta para isso ser chamado de censura? No que isso difere da censura que ocorria na ditadura militar brasileira, onde artistas tinham que mudar palavras e temas para se adequar e não poderia ser publicados no jornal críticas sobre a corrupção do governo e sobre o genocídio indígena?
Não é à toa que a Meta e o X são contra todo tipo de regulação das redes sociais com a desculpa de “liberdade”: essas redes tem um poder grande de controlar e construir narrativas. Elas constroem narrativas que influenciam o futuro de países segundo os seus interesses, ou seja, segundo o interesse da burguesia. As redes sociais são muito perigosas porque são vendidas como uma “praça pública”, quando na verdade não passam de feudos controlados sem nenhum tipo de regulação.
Última modificação em 2026-01-20