Introdução
Na comunidade de retro-gaming, há a eterna discussão entre hardware original e emulação. Estava conversando com uma amiga minha recentemente sobre o tema e acabamos indo para polos opostos. Admito que, na maior parte da minha vida, eu preferi hardware original, a ponto de até colecionar jogos, mas hoje em dia a minha escolha quase sempre é por emulação. Como eu considero uma discussão bastante interessante, resolvi trazé-la para o blog.
Preço e mercado de usados
O primeiro motivo que me faz preferir emulação é o mercado de usados, pois ele sofre muito com inflação de preços e variações. Por exemplo, recentemente virou “moda” nas redes sociais exibir videogames portáteis como o 3DS, DS, PSP etc. O que aconteceu? Esses consoles, que até então eram muito baratos, explodiram de preços. Hoje em dia é praticamente impossível achar um 3DS por 400 reais — o que era algo trivial alguns meses antes da trend começar.
Além disso, as pessoas gostam de inflar franquias famosas por conta do seu grande renome. Super Mario World, por exemplo, é o jogo mais vendido de Super Nintendo, ou seja, tem muitas cópias do jogo circulando por aí. Embora Mario seja uma franquia de renome e tenha grande demanda, a oferta também é imensa. Entretanto, muitos vendedores se aproveitam e inflam o preço do jogo para ficar similar a de jogos raros de SNES. E isso acaba acontecendo com qualquer franquia minimamente conhecida.
O terceiro ponto que gosto de trazer é: o Brasil é um país de sul-global, historicamente excluído da história “hegemônica” dos videogames, possuindo uma história própria (esse texto aborda muito bem isso). O problema para colecionadores é que muitos consoles tiveram péssima distribuição por aqui e você ou é obrigado a importar jogos ou arcar com os preços caríssimos que vendedores nacionais cobram pelas cópias que circulam.
Eu mesmo sofro com esse ponto porque tenho um NES, console que demorou para ser lançado oficialmente no Brasil, e praticamente não tenho jogos para ele. Uma “alternativa” para isso é soluções como fitas repro, cartuchos modernos que reproduzem jogos originais da época, mas o preço desses muitas vezes não é em conta.
Basicamente, colecionar jogos no Brasil é ficar à mercê dos vendedores que se aproveitam da pouca oferta de mercado e isso fica cada vez mais inviável dependendo da distribuição oficial que o console teve.
Rituais, manutenções e custo do Hardware
Isso daqui que eu vou falar pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem do hardware original, dependendo do ponto de vista — para mim, é uma grande desvantagem. Um dos pontos que as pessoas trazem do hardware original é o ritual: ligar o console, colocar o cartucho etc. Eu entendo por que as pessoas gostam, mas acho que isso é um custo adicional quando quero apenas jogar. Principalmente porque esse ritual nem sempre é tão simples assim e envolve manter limpeza constante do aparelho e dos jogos.
Para alguém que joga com frequência, como eu, manter esse ritual é parte do tédio. Entendo-o pois ele pode ter um apelo nostálgico para alguns, mas não cresci na época e não tenho isso. Muitas vezes, é só um atrito adicional na atividade que eu realmente quero fazer.
Quanto à manutenção e custo, entra o fato de que muito desses videogames antigos precisam de TV de tubo, as famosas CRT. Embora a qualidade delas seja excelente para jogos antigos — e eu concordo que é a principal vantagem de utilizar o hardware original — essas TVs também são frágeis, necessitam de manutenção e conectar vários videogames nela é horrível e necessita de vários cabos.
Afirmo isso pois já passei por essa situação. A CRT da minha casa está com problema no magnetizador (o que deixa a imagem com cores alteradas) e também no flyback (o que deixa a TV com um ruído muito agudo que é muito difícil aguentar). Como eu não sei fazer manutenção nessas TVs, eu precisaria levá-las para alguma assistência ténica, mas o problema é que elas são gigantes e difíceis de carregar.
Melhorias através de emuladores: save states, cheats, patches
Abordei bastante as desvantagens de usar hardware original, mas agora quero falar um pouco das vantagens de emulação na minha opinião.
Jogos antigos frequentemente são lembrados por sua dificuldade. Mas, muitas vezes, era uma dificuldade injusta. Eram jogos que mandavam o jogador para o início depois da tela de Game Over, continues limitados e jogos que sequer possuíam opção de salvar. Isso era feito de propósito para estender o tempo de jogo, pensando principalmente que ele era feito para crianças com bastante tempo livre.
Sendo um adulto, essa não é a realidade de muitos e experienciar os jogos dessa forma chega a ser muito frustrante. Uma das soluções mais clássicas para isso que surge em emuladores é a função de save state: salvar o estado completo do jogo em um frame e poder recarregar a qualquer momento. A grande vantagem é que dá controle total para o jogador quando ele quer salvar ou não o jogo. Com frequência, utilizo essa função para poder salvar o jogo quando eu preciso sair de uma vez. Em vez de perder meu progresso, ou ter que desesperadamente achar um ponto de salvamento, eu simplesmente saio do jogo e o emulador salva automaticamente.
Eu não gosto de abusar de save states, por isso, utilizo-os somente para salvar o jogo quando eu saio do emulador e voltar para onde eu estava quando eu quero jogá-lo novalmente.
Outra coisa que eu acho que ajuda bastante é o uso de cheats. O fato de serem “trapaças” pode assustar alguns mas, novamente, esses jogos eram absurdamente injustos e feitos para criança com muito tempo livre. Como eu citei no início, muitos jogos levavam o jogador para o início do jogo depois de uma tela de Game Over. Por isso, nesses jogos, eu gosto de utilizar cheats de vidas infinitas para ter uma experiência agradável e sem ter que rejogar o jogo inteiro porque eu morri na metade dele.
Algumas ferramentas, como o Game Genie Good Guy permitem injetar esses cheats diretamente na ROM, nem mesmo precisando de configuração em emulador (o que para algumas pessoas pode ser bastante chato, inclusive para mim).
Injetando a ROM com esses cheats e usando save states para salvar o progresso quando preciso interromper o jogo, experienciar jogos antigos vira algo moderno e agradável, que corresponde bem a minhas demandas de tempo. Eu mesmo não consigo trocar isso por nada.
Para citar um exemplo concreto, vou falar de Super Mario Bros 3 do NES. É um dos meus jogos favoritos de NES, inclusive tenho o cartucho original. Entretanto, o jogo não tem save. Isso é algo muito ruim, pois o jogo é imenso e a única solução para não perder o progresso é deixar o console ligado. Com emulador configurado com save states, eu adiciono uma ferramenta de salvar no jogo que não existia e posso jogar com mais segurança e no meu tempo.
Outra coisa que emulação traz são patches que transformam a experiência. Já fiz um texto aqui no blog em que conto sobre revisitar o Super Mario World com um patch de widescreen, mas vai muito além disso. Eu consigo adicionar cores em alguns jogos de Game Boy original, aumentar a performance em certos jogos etc.
Comodidade da emulação
Entra em outro ponto aqui que é a comodidade. Eu tenho um TrimUI Smart Pro, um console portátil chinês de emulação que roda Linux e permite jogar diversos consoles antigos. O seu sistema configura a função de save state ao sair, os controles para cada sistema e outras funcionalidades. E fica muito prático jogar esses jogos antigos. Eu consigo aproveitar uma biblioteca praticamente infinita de jogos que eu posso jogar quando quiser, seja em casa na minha cama, seja em viagens, seja na faculdade para passar o tempo.
Enquanto em Hardware original eu precisaria ter milhares de cartuchos, em emulação todos os meus jogos são apenas ROMs num cartão SD ou num HD que eu posso escolher a qualquer momento.
Não muito bem emulação: ports de PC e recompilações
Alguns desses jogos antigos possuem recompilações: projetos que pegam o código original e recompilam para rodar nativamente em plataformas modernas. Um exemplo emblemático foi o de Super Mario 64, que se tornou minha forma favorita de jogar. Foi feita uma engenharia reversa completa do jogo e um port para PC com frameworks modernas, o que permite várias melhorias, como widescreen (o jogo original era em 4:3), movimentação livre de câmera e 60 FPS (para mim isso é sensacional, pois o jogo original era em 30 FPS).
Existem outros exemplos como Ship of Harkinian (port para PC de Ocarina of Time), DuskLight (port de Twilight Princess), entre outros. E todos esses permitem melhorias que tornam a experiência do jogo muito mais agradável, mas sem se distanciar tanto do original (se você não usar mods, claro).
Conclusão
Concluo esse texto dizendo que eu vejo sim vantagens em hardware original. Seja for pelo ritual, pela nostalgia ou pela qualidade da imagem (que numa CRT eu considero imbatível). Porém, prefiro a emulação principalmente pela questão de melhorias (como save states e cheats, que adaptam esses jogos à minha realidade) e pela comodidade de ter vários desses jogos na palma da minha mão e que eu posso jogar de forma rápida.
Última modificação em 2026-10-28