Introdução
Durante o meu carnaval, eu estava sozinho na minha cidade e sem celular (a bateria dele inchou). Foi nesse ócio que eu decidi que eu faria uma maratona de filmes soviéticos para passar o tempo, totalizando 10 filmes no final da maratona. O problema é que eu meio que me empolguei bastante com cinema soviético e acabei estendendo essa maratona inconscientemente para o ano inteiro.
No total, já assisti a 27 filmes soviéticos esse ano, contando com alguns curtas, mas a grande maioria sendo longa-metragens. Eu descobri muita coisa interessante sobre o cinema, finalizei a filmografia de alguns diretores e aprendi algumas coisas que não são muito comentadas pela “cinefilia ocidental”. Também encontrei alguns gêneros e filmes famosos na Rússia e outros países do Leste Europeu, mas praticamente ignorados pelo mundo ocidental.
Nesse post, quero compartilhar um resumo da minha experiência com o cinema soviético.
O estranhamento: Sergei Eisenstein
Bem, um dos diretores que eu explorei sua filmografia por completo foi o Sergei Eisenstein. Ele é um diretor de poucos filmes, somente 7 filmes acabados por ele em vida, e o resto são vários projetos inacabados. Depois de escutar sobre Encouraçado Potemkin milhares de vezes, eu dei uma chance ao filme na minha maratona de carnaval e eu amei.
O filme trata de um motim de marinheiros que ocorreu no encouraçado Potemkin e nos acontecimentos da Revolução Russa de 1905. O filme expõe na prática a teoria de montagem de Eisenstein, a chamada montagem de atrações, que consiste na colisão de planos para criar novas ideias (síntese). O filme é genial nisso, ao mostrar constantemente planos de vários marinheiros em contrapartida com as péssimas condições de vida.
Uma das coisas que eu mais gostei do filme é como ele constrói o protagonista coletivo. É um filme que consegue construir tensão e drama, mesmo sem haver um protagonista específico. No início do filme, o personagem que age como “protagonista” é o marinheiro Grigory Vakulinchuk, um bolchevique, que é a pessoa responsável por começar o motim. Mas, mesmo após sua morte, o filme continua com o mesmo drama e tensão, pela própria forma que Eisenstein trata a massa.
Eu acho que a montagem de atrações tem um grande peso nisso, porque o Eisenstein constantemente coloca em colisão planos de diversos marinheiros. Ou seja, raramente estamos vendo um foco numa pessoa só, mas o foco na massa. Como existe essa colisão constante entre planos de diversos marinheiros, a ideia que construímos na cabeça é de um todo, um todo que é maior que a soma de suas partes, por isso essa ideia de espírito coletivo tão forte.
Eu assisti toda a filmografia do Eisenstein: A Greve, Encouraçado Potemkin, Outubro, A Linha Geral, Alexander Nevski, Ivan o Terrível Parte 1 e 2. Eu poderia escrever um post completo só sobre o Eisenstein, mas vou focar na outra obra-prima dele, na minha opinião, que é Ivan o Terrível.
O filme é uma biografia de vida do primeiro czar da Rússia: Ivan o Terrível. O filme foi feito no contexto do realismo socialista e com o Eisenstein tentando se adaptar à repressão estatal e ao fim da vanguarda. Diferente dos outros filmes dele, que são rápidos, colisão de muitos planos etc, esse filme é lento. O filme é quase uma pintura expressionista: os personagens são exagerados, fazem caras e bocas, fazem poses etc. É algo que me estranhou muito no início, mas depois eu entendi que fazia parte do estilo.
O primeiro filme conta mais a história do Ivan lutando contra os boiardos, uma nobreza feudal, para tentar modernizar a Rússia. Lá, Ivan é mostrado como um grande homem apoiado pelo povo que lutou contra a decadente aristocracia. É interessante como Eisenstein constrói o poder do filme com as sombras. O filme tem um grande uso de luz e sombra, com a sombra do czar aumentando ao longo do filme, mostrando o crescimento de seu poder. Óbvio, o primeiro filme trata assim pois o czar era a figura histórica favorita de Stalin, tanto que ele amou o primeiro filme.
No segundo filme, que eu considero mais genial, Eisenstein subverte tudo isso, tanto que o filme foi censurado e lançado somente após sua morte. Ivan começa a exibir sua paranoia, criando uma polícia secreta: a Oprichniki, uma guarda secreta do czar, focada em caçar os inimigos de Ivan. Ou seja, enquanto o primeiro filme vai construindo Ivan como uma figura solitária e perseguida, o segundo filme mostra como o fato dele ser solitário o levou a uma paranoia crescente. Eisenstein estava fazendo uma crítica ao Stalin através da figura do Ivan e ele percebeu, por isso o filme foi censurado.
O filme dobra a aposta em relação ao primeiro filme: ele é ainda mais expressionista, mais exagerado e tudo. Uma das cenas mais geniais é uma cena de dança, em que Eisenstein conseguiu utilizar rolos de filme com cor capturados dos alemães após a invasão soviética em Berlin. A cena tem um uso de cor muito forte, algo meio maneirista: a cena tem um predomínio da cor vermelha, representando a fúria e a paranoia do Ivan, é algo absurdamente lindo. E é logo na cena que a Oprchniki está presente e Ivan está paranoico com medo de ser assassinado, porque de fato os boiardos estavam conspirando contra ele.
Eu queria poder falar mais sobre esses três filmes, mas infelizmente faz um tempo que eu já vi e eu não fiz boas anotações sobre minhas impressões na época. Mas foram filmes que eu gostei bastante e viraram alguns dos meus filmes soviéticos favoritos.
Note que eu falei que eu estranhei o filme do Ivan à primeira vista. Isso me lembrou outro texto que eu li da escola do formalismo russo escrito pelo teórico Viktor Chklovski: A Arte como Procedimento. No texto, o Chklovski argumenta que a arte é um procedimento de desfamiliarização: enquanto no dia a dia em textos informativos nós queremos apenas reconhecer os objetos de forma mais simples possível, basicamente vendo apenas a sua superfície, a arte tem o papel oposto, a arte é um procedimento de ostranênie (estranhamento), o objetivo da arte é complicar a forma a fim de prolongar a percepção e criar uma nova visão sobre aquele objeto que não seria percebida apenas pelo reconhecimento inconsciente.
E o filme trabalha a partir disso. O filme é expressionista, com planos longos, expressões faciais exageradas, poses, diálogos nem um pouco realistas, justamente porque Eisenstein quer causar o estranhamento: ele quer que a gente tenha uma nova visão sobre quem é o czar. Ele não quer apenas que o espectador veja o czar e o reconheça como “a figura histórica que eu estudei nos livros” e sim ter uma nova visão do czar: um homem paranoico, unificador da Rússia, obcecado pelo poder, a aristocracia como uma outra faceta podre da sociedade etc.
Os filmes do Eisenstein são um processo de estranhamento de forma geral. A montagem de atrações, querendo ou não, é apenas um processo de estranhamento: ele coloca em colisão planos para criar uma nova percepção que não seriam vistas se o filme apenas deixasse o espectador reconhecer os objetos.
Três canções para Lenin e finalizando Dziga Vertov
Já falei do Vertov amplamente neste blog, mas eu nunca havia finalizado sua filmografia. Seu filme mais famoso é Um Homem com uma Câmera que eu já falei por aqui. O Vertov também segue bastante o espírito do estranhamento, o seu conceito principal, o cine-olho é praticamente uma máquina de estranhamento: é um olho mecânico que enxerga o que o ser humano não consegue ver e decifra um novo mundo que é desconhecido para o espectador.
Pois bem, eu resolvi finalizar sua filmografia, ou pelo menos o seu “cânone” mais sólido considerado pelos estudantes de Vertov. Com essa brincadeira, faltavam apenas dois filmes: Avante, Soviete! e Três Canções para Lenin, este último sendo praticamente o “último filme” dele. Ele até fez filmes depois, mas ele não conseguiu se adaptar bem ao realismo socialista e, por conta disso, diminuiu sua produção cinematográfica e desvirtuou dos próprios princípios que ele defendia.
Avante, Soviete! é um filme de propaganda encomendado pelo soviete de Moscou para mostrar os avanços da cidade durante a Nova Política Econômica (NEP). É um filme de propaganda mais direto e por isso achei o filme mais “chato” do Vertov. Ele não tem a técnica que chama a atenção do Vertov, nem um eixo central temático, ele acaba parecendo só um jornal de uma hora, lembrando bastante os Kino-Pravda (cine-jornais) que o Vertov fazia, mas sem o experimentalismo. O filme já carrega muito o DNA de Um Homem com uma Câmera, por mostrar já um foco na cidade em movimento, mas não tem o mesmo charme que a sua obra-prima.
Três Canções para Lenin já é outra história, foi um filme que me impressionou bastante. Esse eu nunca havia assistido por achar que seria uma propaganda “pura”, mas ele é muito bom. O filme foi feito pelo Vertov para o aniversário de dez anos da morte do Lenin, mas não chegou a ser exibido durante o aniversário, o que fez o diretor passar mal, compreensível por ele ser um apaixonado pelo revolucionário.
No filme, Vertov volta um pouco a suas origens: é um filme sonoro, mas tem uma montagem muito dinâmica e foca no cine-olho e na construção de ideias a partir do visual. Enquanto nos filmes anteriores do Vertov o Leninismo é uma “aura” que marca a URSS, que leva ao desenvolvimento da nação, à mecanização do campo, ao desenvolvimento energético, nesse filme o diretor deixa de focar no leninismo para focar na figura do Lenin. O Lenin é retratado como um “Deus”, isso já é evidenciado pela própria montagem e mise-en-scene.
Muitas vezes, o Vertov filma estátuas de Lenin mostrando apenas sua silhueta com o fundo sendo uma grande paisagem, mostrando a influência de Lenin no país. Sem contar que muitas vezes ele contrasta, através da montagem, planos da industrialização, mecanização e energização com a estátua de Lenin em frente ao horizonte. É interessante esse contraste porque mostra como Vertov se adaptou ao realismo socialista, que era mais um culto de personalidade construído, do que um culto de personalidade orgânico como nos filmes anteriores.
A esfera religiosa é tão forte, na realidade, que Vertov mostra pessoas rezando para Lenin, mostra canções que dizem que basta olhar para o Mausoléu do Lenin que o seus males serão curados. É interessante porque o seu filme anterior, Entusiasmo: Sinfonia de Donbass, começa com uma cena das pessoas destruindo a igreja e ícones religiosos, enquanto que aqui o Lenin já é tratado como o próprio ícone religioso. Também mostra o Lenin como um libertador de mulheres, o que de fato era uma ideia comum e propagada na época.
O filme acaba sendo um “resumo distorcido” da obra de Vertov. Ele mostra bem a montagem do diretor, a teoria do Cine-Olho na prática, mas sem ser tão radical quanto Um Homem com uma Câmera. Ao mesmo tempo, ele é distorcido porque o ode ao Lenin, algo presente em todos os filmes do Vertov, torna-se um culto messiânico.
Os filmes do Vertov que eu assisti, por curiosidade, são: Cine-Olho, Avante Soviete!, A Sexta Parte do Mundo, O 11° Ano, Um Homem com uma Câmera, Entusiasmo: Sinfonia de Donbass e Três Canções para Lenin. Com isso, eu considero sua obra concluída. Como eu disse, embora ele tenha filmes posteriores, eles desvirtuaram bastante de sua teoria e são uma mera “curiosidade histórica”.
Cartas de um Homem Morto e Lopushansky
Konstantin Lopushansky não é exatamente um diretor soviético bem conhecido no “cânone soviético ocidental”. Ele trabalhou como um assistente do Tarkovski, mas também dirigiu alguns de seus próprios filmes. Eu admito que eu também não conhecia o diretor. Eu o descobri até de uma forma engraçada: estava procurando algum filme para assistir, abri o Letterboxd, botei pra listar todos os filmes soviéticos, ordenei por maior nota média e peguei o que eu achei a capa mais legal. Esse filme era: Cartas de um Homem Morto.
No dia, eu estava até tranquilo, era uma sexta-feira, tinha até comprado um vinho para tomar enquanto assistia a um filme. Eu não sabia de nada do filme, apenas vi a capa e decidi que iria assistir, o que foi um golpe traiçoeiro em mim mesmo.
O filme é sobre um mundo pós-apocalíptico: uma bomba atômica foi explodida e o mundo ficou desolado. Algumas pessoas tentam sobreviver, principalmente as pessoas “de maior importância” (cientistas, políticos e intelectuais) mas o mundo como conhecemos acabou. O filme acompanha um professor que perdeu o seu próprio filho, mas ainda escreve cartas para ele como forma de manter esperança. Ao longo do filme, vemos o professor sobrevivendo no seu antigo museu de história, junto com outros cientistas.
O filme não tem muita “história” no sentido convencional, o objetivo do filme é a imersão. Vemos alguns pontos principais, como o fato de um grupo de crianças ser abandonado por eles estarem num orfanato e os oficiais querem deixar as crianças morrer, enquanto que o professor quer protegê-las.
A primeira hora do filme é praticamente isso: é a imersão num mundo destruído, onde as leis normais não funcionam mais, onde não há mais normalidade, onde o conhecimento é desprezado. Os livros científicos são mais valiosos não por seu conteúdo, mas porque eles são densos e isso gera mais combustível. As pessoas começam a suicidar-se porque não aguentam mais a vida, inclusive alguns dos companheiros do professor. O mercado negro está em alta e muitas vezes é a única forma de conseguir alguns objetos essenciais, como comida, remédio etc.
Dá para ver uma clara influência do Tarkovski aqui no filme, principalmente na forma em que o filme quer que você habite a paisagem, por isso o filme é lento, com planos longos, sem “acontecer muita coisa” (na mente de um espectador contemporâneo). E é nisso que o filme é traiçoeiro.
Nos últimos 20 minutos de filme, após você habitar esse mundo desolador e que todos já perderam a esperança, ele te derruba. O resto dos companheiros do professor o abandonam e vão para um “bunker central” onde estão os outros cientistas, intelectuais, políticos etc. E o professor recebe as crianças do orfanato no seu museu para cuidar delas.
Depois de tudo isso, quando o professor está sozinho com as crianças, todos eles deixados para morrer, o filme mostra o professor dizendo que é Natal. E é ali, com uma cena em silêncio, que Lopushansky mostra um simples gesto: o professor montando uma árvore de Natal a partir de destroços e resto de lixo junto com as crianças. Aquilo ali é desolador para qualquer um. Eu comecei a chorar imediatamente, inclusive estou com vontade de chorar de novo escrevendo isso. É uma cena simples sabe, não tem cortes dinâmicos, música para fazer chorar, é apenas um idoso e várias crianças montando uma árvore de Natal num bunker em um mundo que perdeu toda a esperança.
Eu passei algumas semanas processando o filme e essa cena, inclusive acordando de madrugada para chorar. Não é como se não tivéssemos vivido algo parecido: a pandemia de COVID-19, quando as regras normais do mundo deixaram de fazer sentido, sentimos desesperança, medo, caos e, em meio a tudo isso, fizemos coisas “bestas” e sem sentido para nos mantermos vivos.
Cartas de um Homem Morto é um filme de afirmação da humanidade e do seu maior triunfo: a inutilidade. É sobre ver a esperança mesmo quando tudo aparenta que acabou. É o filme que expõe de forma mais visceral o que é niilismo ativo: mesmo que o sistema inteiro tenha colapsado, nós devemos reafirmar a vida em meio ao caos, criar nossos próprios valores. Todo mundo pode dizer que o mundo acabou, mas nós podemos mesmo assim reafirmar a vida e comemorar o Natal.
E a cena final do filme? Totalmente desoladora. O professor morre, a árvore de Natal foi o seu último gesto calculado para dar esperança para as crianças, e as crianças começam a caminhar, vestidas com roupas contra radiação, no meio do nada, para lugar nenhum. É uma cena ambígua, ela dá a esperança ao mesmo tempo que a incerteza. Lembrou-me bastante a cena final de “Roma Cidade Aberta”, que mostra que a esperança do futuro está nas crianças.
O filme também me fez repensar muito sobre minha vida, foi até por isso que eu chorei tanto. Para além da pandemia, foi perceber que eu também fiz vários gestos inúteis simplesmente para conseguir sobreviver. Foi por isso que eu passei mais de uma semana chorando e tive tanta dificuldade de “superá-lo”. Eu até escrevi uma reflexão que eu tive sobre o filme anteriormente no blog.
Comédia soviética e Leonid Gaidai
Depois desse choque emocional imenso e inesperado, eu realmente precisava ir atrás de alguma coisa mais leve. Como eu ainda estava no meio da minha maratona do carnaval, eu não queria sair da temática soviética, foi aí que eu pesquisei sobre “comédias soviéticas”. Despretensiosamente, eu fui assistir a um diretor chamado “Leonid Gaidai”, começando pelo filme Ivan Vasilievich muda de profissão, ironicamente voltando ao czar.
O filme trata a história de um cientista atrapalhado chamado Shurik que está construindo uma máquina do tempo no interior de sua casa. Ele tem problema com os vizinhos, principalmente porque a máquina do tempo sofre de problemas e às vezes consome toda a energia do prédio.
É numa dessas aventuras que Shurik testa novamente sua máquina do tempo e coloca para ela abrir um portal para a Rússia czarista. Nisso, Ivan o Terrível vem para o presente e o síndico do seu prédio volta ao passado junto com um bandido que estava roubando outro apartamento.
O filme é uma comédia estilo slapstick, algo estilo Chaplin para uma referência ocidental. O que me impressionou tanto do filme é o seu rigor formal, que não deixa a desejar nada comparado com o cinema soviético “sério”. O filme tem uma montagem quase que matemática para causar o humor, muitas vezes uma mise-en-scene específca para potencializar o humor.
Ele também utiliza música muitas vezes como forma de “abandonar os diálogos” e deixar para que o humor físico tome conta da cena. O filme é absurdamente lindo, tem um uso muito bom de cores, parece que as coisas pulam da tela chamando atenção. Ele utiliza até um uso distinto de cores para identificar o presente e o passado, mas sempre mantendo um tom fantasioso, o filme parece uma pintura.
Eu não tenho muita coisa mais para falar, principalmente porque eu não fiz anotações boas do filme na época, mas foi um filme que me divertiu demais e me deixou ansioso para assistir a mais coisa do Gaidai. Era justamente o que eu estava precisando para superar a dor causada por Cartas de um Homem Morto, mas sem abaixar a qualidade cinematográfica.
Outro filme que acho que vale a pena comentar é O Braço de Diamante, também uma comédia, que faz muitas coisas inteligentes também. O filme trata de uma operação de tráfico de diamantes para a URSS. O objetivo era que um homem, Kozodoyev, viajasse para fora, “quebrasse o braço” e fosse enfaixado com diamantes escondidos. Porém, o protagonista da história, Semyon, um cidadão soviético inocente, sem querer, é confundido com Kozodoyev e ele tem o seu braço enfaixado.
A polícia soviética estava monitorando a situação e sabe do braço de diamante de Semyon e que ele é um cidadão inocente. Por isso, eles resolvem utilizá-lo como isca para prender os traficantes de diamantes.
O filme me chama a atenção porque ele pega a típica estrutura de um suspense de Hitchcock: um homem comum, envolvido em um esquema que ele não escolheu e onde ele tem que ficar em constante alerta e com paranoia. E o filme é bastante isso mesmo, ele trabalha muito bem o suspense. A questão é que, em vez do ápice do suspense ser o clímax, aqui o clímax é a comédia. Ao contrário dos outros filmes do Gaidai, em que a comédia é onipresente, aqui a comédia é recompensa pela construção do clímax.
É interessante como o visual contribui para isso também. Como eu disse, o filme Ivan Vasilievich muda de Profissão é um filme muito colorido, quase fantástico, enquanto que O Braço de Diamante é um filme mais realista “cru”, menos saturado. Isso ocorre por conta da subversão: você entra num filme esperando algo “sério”, parecido mais com um suspense ocidental, vê a construção do suspense, para depois ter um “boom” de comédia slapstick e o contraste tornar tudo engraçado.
A prova de que isso é pensado e é de uma genialidade incrível é que o filme é em widescreen. Os filmes da URSS eram geralmente na proporção de TV 4:3 e o widescreen era utilizado apenas por filmes épicos ou por filmes estrangeiros. Então, para o cidadão soviético, um filme em widescreen era obrigatoriamente um filme “sério” ou “estrangeiro”, o que mostra o cálculo que Gaidai fez para potencializar a comédia.
Além desses filmes, eu também assisti a Operação Y e A Prisioneira do Cáucaso. Dois filmes divertidos em que o protagonista também é o Shurik, mas não tenho muito o que falar sobre eles que eu já não falei sobre os outros dois. Em geral, Leonid Gaidai foi uma surpresa imensa, ainda mais porque esses filmes são “populares”, eles eram o “blockbuster soviético”. É estranho ver um “blockbuster” feito com uma qualidade de artesão tão alta, não há diferença entre o “cinema de arte” (odeio esse termo) e o “cinema popular”.
Não é à toa também: a URSS teve a primeira universidade de cinema do mundo, a VGIK, e todos os cineastas tinham uma formação extensa e rígida de cinema. Então, mesmo que o cineasta não quisesse, ele era um artista de excelente qualidade.
Osterns ou westerns soviéticos
Depois que eu terminei a maratona soviética (os 10 filmes que eu tinha prometido a mim mesmo), eu dei uma pausa e comecei a assistir outras coisas. Assisti aos filmes do Glauber Rocha: Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e Terra em Transe. Como os dois primeiros são muito inspirados por westerns e eu nunca havia assistido westerns antes, eu resolvi assistir aos westerns clássicos americanos do John Ford, especificamente Rastros de Ódio e No Tempo das Diligências. Excelentes filmes claro, mas não é o foco deles por aqui.
Esse contexto inicial é só pra dizer: eu estava focado em western. O meu YouTube deve ter adivinhado isso, porque ele mostrou a recomendação de um filme no canal da Mosfilm: O Sol Branco do Deserto descrito como um “Ostern”. E eu fiquei: o que diabos é um Ostern? Claro que eu fiquei curioso.
Fui pesquisar e descobri que Ostern era uma espécie de western soviético que se passava durante a Revolução Russa ou durante a Guerra Civil. Geralmente focava nos soldados do exército vermelho, na coletividade e nas partes “exóticas” da URSS. Eles mostravam os soldados do exército vermelho levando a ideologia socialista para as partes longínquas da URSS, sendo tratados como heróis.
É estranho porque eu sequer sabia que esse gênero existia. Ninguém fala disso, nenhum crítico de cinema, nem mesmo os “comunistas” que vivem falando de cinema soviético. Eu me senti embarcando num território novo e, assim, fui assistir ao filme.
O filme aborda a história do soldado do exército vermelho Sukhov que lutou na guerra civil russa por anos, na região do atual Turcomenistão. Depois de tudo isso, ele só quer voltar para a casa para encontrar sua esposa. No entanto, ele encontra no meio do caminho uma briga entre o exército vermelho e guerrilhas locais organizadas por Abdullah. É nisso que ele é praticamente forçado a entrar para proteger mulheres e lutar contra as guerrilhas.
O filme é bem um “western clássico”, no sentido dele ser racista e orientalista. Ele trata o soldado do exército vermelho como um herói, que está lá para libertar mulheres, levar os ideais da revolução e acabar com as velhas estruturas de poder. Ele é um soldado que carrega o “fardo” de ter que acabar com isso, mesmo só querendo voltar para a sua mulher. Lembra “Três Canções para Lenin”, nesse sentido, só que focado num soldado do exército vermelho em vez do Lenin.
É um filme interessante cinematograficamente, sim, mas não vejo muito o que falar dele. Ele tem os clássicos gerais de westerns, tem o mesmo rigor formal que outros filmes soviéticos e também tem cenas de ações muito boas. É um filme para ficar “imerso” no local. Uma curiosidade é que os cosmonautas soviéticos tinham um ritual de sempre assistir a esse filme antes de suas viagens.
Enfim, esse filme foi mais para mostrar como eu tive a introdução ao gênero Ostern. O próximo filme que vou falar é bem mais interessante: Em Casa com Estranhos, Um Estranho em Casa. Também é outro filme que se passa durante a Revolução Russa.
A premissa do filme é que um soldado do exército vermelho, Shilov, teve a missão de entregar ouro para Moscou para que eles pudessem comprar pão para que a população não passasse fome. No entanto, o ouro foi roubado e Shilov não lembra nada disso. O herói, assim, passa a ter que provar a própria inocência e mostrar que o ouro foi roubado por bandidos.
Eu acho mais interessante porque ele trata mais a construção do mito do herói coletivo. O Shilov é uma espécie de “novo homem soviético” dedicado ao coletivo e à sua nação. O ato heroico de Shilov ocorre porque ele “abandona a pureza do exército vermelho” para se misturar entre os “impuros” (os possíveis bandidos) e descobrir quem roubou o ouro e onde está o ouro. Ele está sacrificando sua “pureza revolucionária” pelo bem comum.
Tem um subtexto cristão enorme por aqui: Shilov “desce” do seu posto, se mistura entre camponeses e bandidos, se torna um estranho entre os revolucionários (por isso um estranho em casa), para poder salvar a própria nação. Tanto que o Shilov é mostrado como um homem bom: ele ajuda camponeses inocentes e excêntricos, mesmo quando eles mesmos conspiram contra ele.
A cena final, por exemplo, mostra Shilov voltando ao exército vermelho, dessa vez com o ouro encontrado, mas ele está com roupas rasgadas, ferido, quase como “Jesus” em sua morte. Os filmes soviéticos muitas vezes tinham um subtexto cristão e eu acho isso muito interessante.
O ouro no filme é um MacGuffin, um dispositivo narrativo para fazer a história avançar. O ouro em si é um objeto de total irrelevância: ele serve apenas como uma “tentação” de Shilov (ele deve roubar o ouro?), apenas como uma marca física de sua pureza revolucionária e de seu sacrifício. Assim como Jesus foi tentado no deserto, Shilov também é tentado para ficar com o ouro só para si.
A montagem até lembra um pouco da do Eisenstein, por fazer contrastes e colisões entre planos opostos: carruagens velhas com carros a combustão, o modo de vida proletário e o burguês, a vanguarda da revolução e os camponeses e bandidos.
No mais, é um gênero muito interessante e de construção de mito. Ele surgiu justamente no final da URSS, durante a era Brezhnev, coincidindo com a “estagnação” da nação. Esses filmes surgem como forma de “resgatar” o combustível revolucionário de volta, para marcar a Revolução Russa e o exército vermelho na memória popular. Por enquanto, só assisti a esses dois filmes, mas pretendo explorar mais o gênero.
Conclusão
No mais, está sendo uma bela aventura mergulhar no cinema soviético. O cinema da URSS é muito diverso, contendo drama, comédia, western, vanguarda, propaganda e é uma pena que muitas vezes a URSS é reduzida a uma série de tropos: filmes sérios, filmes de vanguarda e filmes revolucionários. Basicamente, quando se fala de URSS na cinefilia ocidental só se fala de Eisenstein, Vertov, Tarkovski e Klimov. O que é uma tristeza, pois tem muita coisa para apreciar no cinema do país.
Eu falo disso até com um tom de raiva, porque sempre são os mesmos filmes recomendados, quando o cinema soviético é tão maior que isso. E é porque eu sei que eu ainda estou na ponta do iceberg e tenho muita coisa para explorar. Ainda mais porque eu nem falei de todos os filmes que eu assisti e esse post já está gigante. Faltou cinema do degelo, animações, Tarkovski (esse não citei porque é conhecido), comédias da Perestroika, Larissa Sheptiko…
Para mim, essa jornada está sendo muito boa. Eu tinha contato majoritariamente com cinema americano e cinema brasileiro, com cinema soviético era apenas Vertov. Agora, tenho uma base muito boa e estou ainda mais curioso para aprofundar ainda mais no cinema do país.
Última modificação em 2026-04-29